Calerdoses... ?

Janeiro 29, 2006



Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59


Perna p'ra que te quero cruzada!?




Sei que és palavra em silêncio
Sei que danças
És trança desenhando o continente
das mãos que contornam a flor de sua pele.

Arraste-se nua que és rua,
percurso a cutilar o jardim de seus pêlos.
És dueto e alicerce de minh'alma...

Sem correr, que a hora sempre passa...
Já é meia noite, meia calça, meio fio dessa finda estrada de espera desfiada...

há coxos degraus
quebrando o encanto do cristal em sua vida compassada,
Vá devagar que és casta, uma jornada nunca gasta.

Venha e vista-se a assaltar olhares,
que os próximos pares serão passos
que saltarão do alto de seu scarpin.


Shy...



Descomposta arrumo o cabelo
No dedo ainda resta um novelo de esperança
Lanço mão de um lenço umedecido,
desmaia o tecido que é nosso enlace
A noite cai de minhas mãos
Enquanto dedos cambados Indicam sua direção
Reivindicando o cambiar de sua atenção

Quando percebo sua imagem fechar
seu foco em mim ficar
Vem um rubor que insiste em fincar
O estalo de ver tudo girar

Vejo tudo se encaixar
na escuridão de meu denso olhar
E sem ninguém notar
há um brilho em meu novo piscar


Verborragia


Como se o vazio quisesse deixar de sê-lo, Sela-se o silêncio

Grita o desejo fundo
A dor de um corpo mudo
Com força que finca a carne
Fundindo gosto e desgosto
No osso do rosto
que é fosso na fossa da face
afundada entre olhos fundos...

Friamente funda-se a visão do fim inaugurarando o novo paladar de amar o amor absorvido na dor amarga ao respirarar fundo seu odor mais que profundo desse tempo mais que imperfeito

Tudo porque amor é ao seu jeito
Assim: liquefeito



*para a amiga cujas fotos são meus furtos,


Congresso Internacional do Medo



Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo,
que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio,
porque este não existe,
existe apenas o medo,
nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões,
dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados,
o medo das mães,
o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores,
o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte
e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos
nascerão flores amarelas e medrosas.



* Carlos Drummond de Andrade
*Pintura By Van Gogh
(fui assaltada e ainda dizem que isso é normal nessa época do ano... ??? ...)